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31.10.07

M A R letárgico

As últimas dezassete postagens minhas correspondem ao Novo Livro do’estruidor, obra do MAR.

Peço desculpa ao homem por qualquer infidelidade que possa ter cometido. Suponho não existir. Mas….

Agora faço um pequeno interregno. Oportunamente apresento-vos mais umas pérolas do rapaz. A primeira - sem nome, e a segunda – “Lágrima”, são parte de um lote de poemas apresentados em concurso na universidade de Coimbra – faculdade de letras – e que mereceram por parte do júri menção honrosa. E a propósito, aquele poema que vos apresentei no inicio e que falava da lua, mereceu no mesmo concurso a designação de “o poema mais original”.

Fiquem ansiosos. E Casimiros.

30.10.07

comboios do desespero

comboio que chega e que parte,
parecem formigas que correm,
em busca das poucas migalhas
que a labuta lhes vai dar;
e em busca do que merece
a formiguinha padece
e os canalhas
pançudos, arrogantes
deste pais que apodrece
aproveitam a formiga
que na labuta diária
com essa pequena migalha
lhes vai encher a barriga.
comboio que chega e que parte,
chega o fim de mais um dia,
regressa a formiga a casa
com essa pequena migalha
para alimentar a familia;
deita-se para dormir,
e depois de uma noite vazia
mais um dia que amanhece
sempre em constante agonia.
comboio que chega e que parte,
e lá vai a formiguinha
com a pequena migalha
para lhes encher a barriga,
mas sempre com a sua vazia.
comboios chegam e partem,
na sua labuta diaria;
e a formiguinha envelhece.

l.f.l. poemas do fundo da gaveta

M A R vivo

REVELAÇÃO


Do desmaio das flores
À agressão dos cactos

À surdez das chuvas de Verão
No pólen
Dos olhos

Ser plâncton devorando
Baleias

Desérticas
Contradições
Cheias

De mel nosso
As flores dos cactos

MAR

M A R vivo

VECTOR


Saem do vector os passos
que vão vêm e voltam sem nunca serem vistos tergiversando
Euclides e as paralelas as partes
vitais da verdade e o visgo
que nos prende ao pré estabelecido.

Outro espaço outra lógica e compreensão
outra vida menos atrevida que a primeira e
no entanto a compensação duma profundidade
onde o regato escava as suas margens
onde os frutos da desova aquecem sobre as areias
onde os predadores se julgam no éden estomacal ou
perto disso.

Há vícios e glórias e abatimentos e frustrações e capitulações
e há tudo o que a terra pode dar arada pelo homem.
Há verdes de enxofre matérias sazonais e imaginações pérfidas
Há quase tudo prometido para a construção:
os tijolos e as almas a massa os projectos
fundações e fundamentos as telhas que nos veem pela telha.

E as alturas propicias: o biorritmo teu indica-te a primavera
esse teu fala-te no outono a ti move-te a chuva os
sonhos principais vêem-te principalmente nos dias indefinidos
A grande vontade desperta com o cheiro do mar inalado da falésia
a noite ou o dia e a lua os sortilégios do amor
talvez o destino da continuidade a humildade do devir
A mais bela planta pisada não se sabe porquê
E sem maldade
a vitória plácida do futuro vai-nos mostrando o branco no preto
no cinzento do cérebro.


MAR

29.10.07

politicos

noite negra como breu
aves que passam, esvoçam
como fantasmas, esvoaçam
dou um salto,
será que são mesmo fantasmas;
fico em sobressalto.
sou tomado de assalto
por um medo interior
que de negro só tem dôr.
aves que passam, esvoaçam,
esvoaçam mais do que passam;
predadores, necrófagos,
ou simples actores;
esvoaçam dentro de nós,
devoram-nos os interiores,
devoram-nos a alma sem dó nem piedade,
com calma.
aves negras que já não passam,
só esvoaçam.
neste pais que é o meu,
mergulhado neste breu;
fascistas, chupistas, vilôes,
politicos de merda, corja de aldrabôes.
aves que já não passam, nem esvoaçam,
limitam-se a debicar,
as entranhas deste povo
que não vê nada de novo.
noite negra, quando acabas?

l.f.l. poemas do fundo da gaveta

M A R vivo

Capitulo 5º VENÇA A VENTURA DO AMOR


POEMA

A especial brevidade
A eclosão
Da divina natividade;
E o especial esperanto
Que sintoniza as ilhas
P’lo enlouquecer das vagas


MAR

M A R vivo

JORNADA

Sempre que alargo as narinas
Para o ar prenhe das noites de Verão,
Embriago-me de nostalgia
E penso no então.
Parece que nem tudo é bom,
Nem tudo é mau.
São pensamentos, lembranças
De amor,
De liberdade
Do ar e do sol e de tudo
O que dá significado à vida.
Quisera voltar, mas não…
Como posso ver, o cheiro é o mesmo,
Tudo pode ser o mesmo,
Sem o ser.
É como caminharmos no barco que nos leva .
Vale mais que esperar
E não encontrar coisas novas.

M A R

A culpa morre sempre solteira

Artigo 10.º
Irresponsabilidade

Os Deputados não respondem civil, criminal ou disciplinarmente pelos votos e opiniões que emitirem no exercício das suas funções e por causa delas.

Artigo 11.º
Inviolabilidade

1 - Nenhum Deputado pode ser detido ou preso sem autorização da Assembleia, salvo por crime doloso a que corresponda pena de prisão cujo limite máximo seja superior a três anos e em flagrante delito.

2 - Os Deputados não podem ser ouvidos como declarantes nem como arguidos sem autorização da Assembleia, sendo obrigatória a decisão de autorização, no segundo caso, quando houver fortes indícios de prática de crime doloso a que corresponda pena de prisão cujo limite máximo seja superior a 3 anos.

3 - Movido procedimento criminal contra um Deputado e acusado este definitivamente, a Assembleia decide, no prazo fixado no Regimento, se o Deputado deve ou não ser suspenso para efeito do seguimento do processo, nos termos seguintes:

a) A suspensão é obrigatória quando se tratar de crime do tipo referido no n.º 1;
b) A Assembleia pode limitar a suspensão do Deputado ao tempo que considerar mais adequado, segundo as circunstâncias, ao exercício do mandato e ao andamento do processo criminal.

4 - A acusação torna-se definitiva, acarretando prosseguimento dos autos até à audiência de julgamento:

a) Quando, havendo lugar a intervenção do juiz de instrução, este confirme a acusação do Ministério Público e a decisão não seja impugnada, ou, tendo havido recurso, seja mantida pelo tribunal superior;
b) Após o trânsito em julgado da decisão de pronúncia, por factos diversos dos da acusação do Ministério Público;
c) Não havendo lugar a instrução, após o saneamento do processo pelo juiz da audiência de julgamento;
d) Em caso de processo sumaríssimo, após o requerimento do Ministério Público para aplicação de sanção.
5 - O pedido de autorização a que se referem os números anteriores é apresentado pelo juiz competente em documento dirigido ao Presidente da Assembleia da República e não caduca com o fim da legislatura, se o Deputado for eleito para novo mandato.

6 - As decisões a que se refere o presente artigo são tomadas pelo Plenário, precedendo audição do Deputado e parecer da comissão competente.

7 - O prazo de prescrição do procedimento criminal suspende-se a partir da entrada, na Assembleia da República, do pedido de autorização formulado pelo juiz competente, nos termos e para os efeitos decorrentes da alínea a) do n.º 1 do artigo 120.º do Código Penal, mantendo-se a suspensão daquele prazo caso a Assembleia delibere pelo não levantamento da imunidade e enquanto ao visado assistir tal prerrogativa

M A R vivo

NOVA FERIDA


Qual, mais do que quem
se permitirá uma coisa dessas?

Será assim? E ele, calculista e frio
despoletará sobre nós a bomba de
seus vazios e frustrações?

Quem, mais do que qual
será o obreiro do apaziguamento?

O domador arriscando dos fantasmas
alheios, nós todos, unanimemente,
chamados à pedra.

Quantos, mais do que quais
seremos preciosos para respeitar a vida?

E quais, mais do que quantos
terão precisão de conhecer o amor

por engaste?


MAR

26.10.07

M A R vivo

IDA

Soprou-te outro vento, vela fingida.
Soprou-te por trás, reflexo
De miragem que não largo
Por querer ir.
Sou ainda o mesmo;
Por ti, petrificar-me-ia
Até à hora do juízo final.
Por ti, reflexo de miragem,
Vejo loucas as estrelas
Sempre que me afundo em mim próprio,
Na minha solidão.
Que ventos te sopraram, luz de vela?
Que brancura ou transparência te fundiram com o nada?
Quisera ir…
Agora não sei,
Já não sei nada.

Vai, vai vela branca ou luz de vela,
Folha morta ou folha viva
Não vou mais chorar por ti
Sou a força do mar,
A seiva da árvore,
A corrente de ar
Sou eu…


MAR

M A R vivo

CAPITULO 4º LIBERTAI


Despe-te flor
Deixa-me te ver como concebeu o criador
Mostra-te a lisura do veludo a candura
do aroma
a táctil sensação
do fogo reflectido por ti
Do sol
Sim nua flor te quero ver
para resistir a ter-te
e ver-te definhar

MAR

25.10.07

M A R vivo

CAPITULO 3º …A CHAMA



MODIFICAÇÃO


Suporte malvado
Espetado e alado
Somítico pedaço artificial
Anti-origens cabeçudo
Amnésico chafurdante
Do fruto ousado
Que nos custa a pressentir.

Tiques e truques
Vindos dos pântanos
Por onde entramos
Enlouquecem-nos a vida
Fustigantes furacões
Nós cegos
Destruindo

Anjos inflamados
Inflamaram anjos
Inflamados foram
Demónios por demónios
Ao contrário
Do que se poderia ter querido
E agora havemos de nos estar a destruir por causa disso?

MAR

24.10.07

M A R vivo

IRMÃOS

Estava a voar, sozinho, numa manhã de orvalho
E ouvi os sinos no país distante.
Do cimo dos prédios vi, estava só,
Os prantos caindo pelas paredes
Destruindo os cristais sobre a relva rejuvenescida.
Alguém me avisa, um pássaro,
Para descer ao chão, guardar as asas,
Tinha acabado a Primavera.

Nessa noite cismei, a olhar para o calendário
Igual a sempre, não se mudou.
Guardei as asinhas na arca de madeira
Desiludido.

Mas, inocente, em água tornado, derramada
Para acolher os seres acossados com a ausência do Estio
Descobri nessa praia, desse lago,
A força que nos impele ainda contra o frio.

M A R

M A R vivo

POENTE DE FOGO E TREVA


Senti que tudo se tinha deixado amolecer.
O Bicho Sono atacou as casas alvas;
Ricos carpinteiros ajudaram na tarefa.
(Na enseada as velas dos barcos já choram a despedida)
O profeta já beijou o chão
Na cerimónia vestiram-se azuis.

Do poente, no mar
Cinzento,
Se viu que o fim estava próximo.
Os ricos desfazem as camas de seda.
No pó os lençóis são sempre de pó
E de lava ardente
Os cobertores.


M A R

23.10.07

Tipo Porreiro

- Tou?
- Tou? è pá tás bom?
- E então tudo bem? diz lá
- preciso que me faças um favor.
- na boa, diz lá!
- preciso que vás votar.
- não posso pá, não tenho as cotas em dia.
- tens pois, não te preocupes.
- de certeza?
- á confiança, olha, votas na lista A e no Luis Felipe Menezes.
- tá bem, levo o cartão de eleitor ou quê?
- leva só o B.I.
- O.K.
- Tou a contar contigo pá, isto é importante.
- O.K. fica bem

M A R vivo

FERIDA

É certo como plantas em casa
Só serve para se pensar nisso
E nos chatearmos
É calcanhares a quilos
De distância da tonelada
Que a vida é doce. Tenros
Corpo e olhos ingénuos
Alma pomba doce
Como nos fere vivermos
Neste campo de caça a céu aberto

Como nos fere…


M A R

22.10.07

M A R vivo

Há alguma coisa mais triste do que perguntar se há alguma terra onde as pessoas nasçam todas mortas? Existe naturalidade nisso, tanta quanto existe no achar-se natural o azedo eterno das laranjas? E ser-se um desses natimortos, um vegetativo, uma célula da estrutura orgânica que liga e ajuda a articular os ossos de uma ilusão apodrecida?

Um dia um espelho, talvez um charco, reflecte-nos como títeres dançantes e espaventamo-nos de drástica satisfação. Fica-nos a miragem duma profundidade para lá da banalidade arriscada da focinheira, sem nos determos o olhar no resto, no que está atrás de nós, no que nos emprestaram para a posse. Não vimos nos espaços vagos a sujidade branqueada dos dentes gigantes que já lá estavam a rir-se de nós. E nos interstícios os podres, visíveis se não fosse da nossa invisualidade que tal boca se alimenta. Condição caínha, topamos por vezes o cheiro. Pestilento, consideraríamos se na nossa redoma da Frigidez Inata não tivéssemos uma abjecta, viciada, forçosamente não denominável atmosfera; pestilenta a consideraríamos se, logo aposto ao próprio acto da concepção não nos tivessem instilado no colo esconjuro o veneno apropriado que nos acompanha na nossa fruste saída, que jorra sangue placenta, aos baldões connosco, rissoizinhos acabados de fritar.

Boas asas, das que, já prevenidas, trazem nos cílios delicados de suas penas, as imprescindíveis gotículas de oxigénio, vão por vezes passando e privando no seu honrado marasmo alguns dos defuntos que, mais afortunados, têm o prazer de sentir o seu enterro rolar por outros asfaltos; e alguns mesmo, da desdita de serem reanimados da sua mortal letargia por um qualquer desses lapsos de que a vida ou a sua congénere de situação são capazes mesmo sem quererem, está visto.

E é por vezes destas turbulentas salgalhadas, destes entras-e-sais, destes renascimentos e novos-zombies, que o saco se revolve, e deixa escorrer alguma peçonha pelos orifícios de supetão abertos. E lá está: queixas dos vizinhos chegam, por estridências de papa-merdas, deturpadas e logo rotuladas de ofensivas e bem-cheirosas, pese embora o virem por vezes atafulhadas do mesmo substrato malcheiroso que pretendem atingir. Mas quando, por exemplo, uma insuspeitada fragrância de rosa consegue, na sua virgindade de raio arremessado, pelos interstícios atingir o coração da cloaca, então gera-se um caos inaudito: os mortos mais mortos ou matam-se ou encomendam nova sepultura, isto enquanto não conseguem, como é óbvio, o passaporte interino para os abrigos de merda-até-à-raiz-dos-cabelos. Uns mortos menos mortos atiram-se dos primeiros andares ou dos telhados para as piscinas de salvação. Outro ficam pelas varandas onde puderam instalar as suas anticépticas comodidades e fossam como se fosse o dia do Primeiro Juízo. Claro que a Rosa sucumbe ao fim de um nada, tão expedito é o sistema de defesa de tal particular autarquia. Mas ainda assim fez com que acontecesse o que já vários cientistas de fora haviam calculado que viesse a acontecer: o progressivo aumento das camadas pestíferas e o seu aumento em profundidade. Sem querer saber se lhes interessava ou não, e nisso tinham razão porque eram mortos, os ditos estavam na eminência de activar o mais horroroso processo anti-ecológico e até mesmo anti-social, porque não restavam dúvidas: se o precário equilíbrio interno do balão estafermo fosse abalado mais meia dúzia de vezes por brisas adversas vindas do exterior corria-se o risco de um raio de merda atingir os antípodas da achatice. E então sim: teríamos o caldo entornado.
M A R

19.10.07

O amor ...

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...


Fernando Pessoa

MARROQUINO

Há quanto tempo não observas a tua caixa de correio electrónico?
Cerejeira:
Há quanto tempo não observas a tua caixa de correio electrónico?